Como o Pisa revela uma década de estagnação do ensino no Brasil

Como o Pisa revela uma década de estagnação do ensino no Brasil

dezembro 4, 2019 0 Por editorsinprosasco

Embora o país tenha obtido leve melhora em relação à edição de 2015, notas de 2018 em áreas de aprendizagem não apresentaram evolução em dez anos. Dois especialistas em educação foram ouvidos sobre o resultado do exame.

As notas do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2018 divulgadas na terça-feira (3) revelam que, na última década, o Brasil ficou estagnado nas últimas posições em leitura, matemática e ciências, áreas de aprendizagem avaliadas pelo exame.

A mais recente edição da prova foi aplicada a alunos de 15 anos em 79 países. Nas três disciplinas, o Brasil ficou abaixo da média dos participantes.

O Pisa é feito a cada três anos, desde 2000, pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Em 2018, foram avaliados 37 países-membros da organização e 42 parceiros, entre os quais o Brasil, que participou de todas as edições desde a sua criação.

Ao longo de duas décadas, as notas do país só apresentaram evolução significativa até 2009, no período que vai do final do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) até o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois, nas gestões de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), as pontuações não tiveram alterações significativas do ponto de vista estatístico, segundo a própria OCDE.

Embora as notas dos estudantes brasileiros tenham apresentado uma leve melhora em relação à última edição, de 2015, elas são praticamente idênticas às de 2009.

O Brasil obteve em 2018 413 pontos em leitura (contra 407 em 2015), 384 em matemática (ante 377 edição anterior) e 404 em ciência (401, três anos atrás). Não existem notas mínimas e máximas, e a escala é definida em cada edição.

A prova classifica os estudantes em seis diferentes níveis de aprendizado a partir da distribuição das pontuações.

A China foi o país que obteve as melhores notas nas três disciplinas (555 em leitura, 591 em matemática e 590 em ciência). O Pisa avaliou as províncias de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang. Outros territórios chineses, como Macau e Hong Kong, foram avaliados separadamente por terem administração própria e alguma autonomia.

Pelo fato de o Pisa trabalhar com amostras da população e haver uma margem de erro diferente para a pontuação de cada um dos países, a posição do Brasil no ranking pode variar. Em leitura, o país fica atrás de mais de 50 países, e em ciência, abaixo de ao menos 65. Em relação à matemática, está no grupo dos dez últimos colocados.

Como foi feita a prova

O Pisa é um exame amostral. Em 2018, cerca de 600 mil estudantes de 79 países fizeram a prova. No Brasil, ela foi realizada em maio por 10.691 alunos de escolas públicas e privadas nascidos em 2002.

Os participantes estavam matriculados a partir do sétimo ano do ensino fundamental (até o terceiro ano do ensino médio) e tiveram até duas horas para responder questões de múltipla escolha e dissertativas.

Também preenchiam um questionário sobre a vida escolar, familiar e as experiências de aprendizagem. Diretores, professores e pais dos alunos também responderam questionários. O Pisa tem como objetivo verificar se as escolas estão preparando os estudantes para a vida adulta de forma adequada, e não se eles assimilaram os conteúdos ensinados.

O teste de leitura, matemática e ciências é respondido diretamente no computador, nas próprias escolas do estudantes. Em 2018, 638 colégios realizaram a prova, para até 33 estudantes por unidade de educação.

A amostra foi definida pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao Ministério da Educação, que é responsável pela aplicação do Pisa no Brasil.

68,3%
dos estudantes brasileiros que participaram do Pisa em 2018 estudavam na rede estadual de ensino, segundo o Inep

15,6%
dos participantes estavam matriculados em escolas particulares

13,7%
foi a proporção de alunos da rede municipal que fizeram a prova

2,5%
estudavam em colégios federais

Em cada edição, uma das áreas é enfatizada. O foco em 2018 foi em leitura, que por isso teve mais perguntas. Em 2018, pela segunda vez, os estudantes brasileiros também responderam sobre letramento financeiro, que avalia a capacidade de lidar com situações envolvendo dinheiro e investimentos.

A fala do ministro

Durante um evento em Brasília, em novembro, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chegou a afirmar que o Brasil estaria no último lugar da América do Sul. “Eu diria que tem uma grande probabilidade da gente estar figurando nas últimas posições dependendo da categoria. Estou supondo com base em números robustos”, disse.

Ele atacou os governos petistas pelo resultado nas avaliações anteriores e prometeu que o governo de Jair Bolsonaro irá melhorar a qualidade da educação brasileira para as próximas avaliações.

“Infelizmente, não vamos conseguir atingir ao final do seu segundo mandato patamares como Coreia, mas vamos colocar sim a educação do Brasil em primeiro lugar na América Latina”, afirmou.

O Pisa traz dados sobre seis países sul-americanos. Em leitura, o Brasil superou Colômbia, Argentina e Peru. Em ciência, empatou com Argentina e Peru entre os últimos, e em matemática, ficou à frente apenas da Argentina. O Chile é o país mais bem-avaliado entre os vizinhos brasileiros em ciência e leitura e é superado em apenas um ponto pelo Uruguai em matemática.

A divulgação do resultado do Pisa tem colocado os ministros em situação delicada. Em 2015, Mendonça Filho, que à época comandava a pasta, afirmou que os resultados representavam uma “tragédia”.

“E confirma exatamente o diagnóstico que fizemos, desde o início da nossa gestão, de que, apesar de termos multiplicado por três o orçamento do Ministério da Educação, em termos reais, o desempenho ficou estagnado ou até retrocedeu, como é o caso específico de matemática”, disse, na época.

Na terça-feira (3), após a divulgação dos dados, Weintraub também falou em “tragédia” e disse que a culpa pelo desempenho do Brasil era “integralmente do PT” e da “doutrinação esquerdófila sem compromisso com o ensino”. Segundo ele, os governos anteriores queriam “discutir sexualidade”, mas não “ensinar a ler e escrever”.

O que diz o Pisa 2018
METADE ABAIXO DA MÉDIA MÍNIMA

A prova classifica os estudantes em seis níveis de proficiência em cada uma das três áreas (leitura, matemática e ciência). Os resultados de 2018 revelam que apenas 2% dos brasileiros alcançaram os maiores níveis de proficiência (5 e 6) em ao menos uma disciplina (a média da OCDE é de 16%).

Já 43% dos alunos no Brasil ficaram abaixo da média mínima da prova (nível 2) nas três disciplinas. Isso significa que não conseguem identificar a ideia principal de um texto, resolver problemas com números inteiros e entender um experimento científico simples. Em média, apenas 13% de todos os estudantes ao redor do mundo que prestaram a prova ficaram nessa situação.

AUMENTO DO FOSSO EM LEITURA

Em 2009, a distância entre os alunos com as melhores notas e os com as piores em leitura foi de 84 pontos (era de 87 na média da OCDE). Já na edição de 2018, o fossos entre os dois grupo pulou para 97 pontos (enquanto a média da OCDE ficou em 89 pontos). Dentro do grupo que obteve um quarto das melhores notas, apenas 10% são estudantes com os níveis socioeconômicos mais baixos (a média da OCDE é de 11%). No grupo dos estudantes com o desempenho mais alto em leitura, 6% eram de alunos com maior nível socioeconômico e nenhum com baixo nível.

AUMENTO DE ALUNOS SEM PREJUDICAR NOTA

Ao tornar a educação básica obrigatório, o Brasil teve uma expansão entre 2000 e 2012 no número de estudantes cursando o ensino médio. Por isso, o percentual de alunos representados pelas amostras do Pisa pulou de 55% (2003) para 65% (2018). Segundo a OCDE, o país foi um dos que conseguiu aumentar a quantidade de estudantes de 15 anos matriculados nas escolas sem que a média na prova caísse.

A CONCENTRAÇÃO DE ALUNOS

Os estudantes com os melhores níveis socioeconômicos têm maiores chances de se concentrarem em certas escolas, o que sinaliza para a existência de “ilhas de excelências” na educação. Já os estudantes com status socioeconômico mais baixo têm apenas 18% de chance, em média, de estarem matriculados nas escolas daqueles que pertencem ao grupo que obteve 25% das melhores notas em leitura (a média é de 17% na OCDE).

Livros. Imagem: Free Pik.

MENINAS SÃO MELHORES EM LEITURA

As meninas superam os meninos em leitura por 26 pontos (enquanto a média da OCDE é de 30 pontos). Já em matemática, a vantagem dos meninos é de nove pontos em relação às meninas (a média da OCDE é de cinco pontos). Em ciência, os dois grupos têm desempenho similar. Na média da OCDE, as meninas superam levemente os meninos por dois pontos.

EDUCAÇÃO SUPERIOR

Entre os alunos com baixo nível socioeconômico, 10% dizem não esperar concluir o ensino superior. Apenas 4% têm essa expectativa no grupo dos estudantes com maiores níveis socioeconômicos.

Entre os alunos com alto desempenho em matemática e ciência, um em cada três meninos diz esperar trabalhar como engenheiro ou em outra profissão ligada à ciência quando adulto. Já entre as meninas, dois quintos dizem que vão trabalhar na área da saúde (enquanto um quarto dos homens pretende atuar na mesma área).

BULLYING NAS ESCOLAS

Cerca de 29% dos estudantes disseram ter sofrido bullying algumas vezes no mês, enquanto a média entre os países da OCDE foi de 23%. A maioria dos alunos (85%) concorda que é positivo ajudar colegas que não conseguem se defender sozinhos.

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O SILÊNCIO EM SALA DE AULA

Cerca de 41% dos estudantes brasileiros disseram que na maioria das aulas de língua os professores têm que aguardar por muito tempo para que a sala fique em silêncio. Os que descreveram que essa situação é frequente em suas escolas obtiveram 19 pontos a menos em leitura dos que os que reportaram que isso nunca ou raramente acontece.

ENTUSIASMO DOS PROFESSORES

A maioria dos estudantes brasileiros (83%) afirmou que seus professores demonstram alegria ao ensinar. A média é de 74% nos países da OCDE. Na maioria dos países, incluindo o Brasil, alunos obtêm melhor desempenho quando percebem maior entusiasmo e interesse dos professores no assunto.

Para concluir a leitura, acesse aqui.

Fonte: Nexo