11/01/2019

Uma das historiadoras mais renomadas do país, Schwarcz fala sobre governo Bolsonaro e da decisão de começar um canal de vídeos.

Figura reconhecida na academia, a historiadora Lilia Schwarcz decidiu que estava na hora de conquistar um novo público. Em 2018, a pesquisadora fundou um canal no YouTube para discutir os assuntos que a transformaram em uma das maiores intelectuais do país: questões raciais e história do Brasil. Mas ela vai além. Nos vídeos com produção da Uzumaki Comunicação, a historiadora fala sobre a diferença entre democracia e autoritarismo, o politicamente correto e a formação ministerial do novo governo.

Schwarcz, aliás, não foge ao debate. Considera que a gestão de Bolsonaro já se mostra autoritária e que padece de um déficit republicano. “É um governo claramente populista, conservador e que não tem apego aos direitos das minorias sociais. Ele já expressou claramente isso.” Em conversa com ÉPOCA, Schwarcz comentou sobre o perfil de governos fascistas, a persistência do racismo e o desrespeito aos direitos indígenas.

Desde a ditadura civil-militar não havia tantos militares no primeiro escalão do governo. O que isso sinaliza sobre o modo de governar do novo presidente?

Bolsonaro já dava sinais durante a campanha de que comporia um governo com largo número de militares. É o maior número de militares desde Costa e Silva, que governou durante a ditadura. Acho que isso é coerente com a filosofia de nosso presidente, ele próprio um capitão reformado. É coerente também com a filosofia do governo que ele implementou, um governo de perfil autoritário que promete soluções fáceis e imediatas para problemas de longo curso no Brasil, como a questão da violência, da segurança e da desigualdade social. Esses são problemas estruturais que só podem ser resolvidos com medidas estruturais. A inclusão de militares no governo sinaliza para uma ideia que chamo de populista, um governo que joga para a plateia, que promete saídas muito fáceis.

Por que as pessoas se deixam enredar por soluções simplistas para resolver questões complexas?

Esse é o beabá dos governos fascistas. Existem duas ondas de governos fascistas. Uma que tomou para si o nome de social-democracia — o que eles não eram — e operava na base da intolerância social, na base do eu contra eles. Foram governos que fizeram o que fizeram, e estou me referindo ao nazismo e aos governos fascistas dos anos 20, 30 e 40. Agora há uma segunda onda, que pode ser encontrada em países como a Hungria, os Estados Unidos e a Venezuela. E essa onda conservadora chega agora ao Brasil.

Quais são as características desses governos?

Eles têm características muito semelhantes: a formação de uma opinião pública contrária à imprensa, contrária aos intelectuais, a tentativa de tornar os problemas das minorias questões menores. São governos com apego a tradições totalmente inventadas, um apego a um passado igualmente inventado, à hierarquia e à ordem. Existe ainda um apego a valores da família na figura de homens misóginos, patriarcais, que tentam impor uma espécie de retrocesso a uma sociedade que mudou. Voltar atrás na história não existe. As pessoas que ganharam direitos não vão voltar atrás em seus direitos. Esse é um modelo de governo que nós temos visto não só no Brasil, na figura de Jair Bolsonaro, mas também no cenário internacional. É um grande tsunami conservador.


Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura pouco depois de assumir e costuma criticar a Lei Rouanet. Por que a cultura é alvo de tantos ataques?

Estamos muito acostumados a falar sobre a eficácia simbólica da política, mas menos sobre a eficácia política dos símbolos. Esses governos autoritários agem também a partir de uma simbologia muito forte, como quando o Bolsonaro manipula a bandeira brasileira, o verde-amarelo. São governos que não legitimam uma cultura plural, uma cultura inclusiva. Mas, da mesma maneira, usam uma certa cultura de forma meramente propagandística e consideram todas as outras formas de manifestações como pertencentes à esquerda. Esses governos também utilizam muito as redes sociais como um canal direto com o povo para produzir ódio. Existe um ataque muito grande a todas as formas de educação, e a cultura está neste bojo. E um país sem acesso às várias formas de cultura é um país fadado a ser conservador.

A questão racial sempre permeou seu trabalho acadêmico e está presente também em seu canal. Poderia comentar um pouco sobre o conceito de racismo estrutural?

Nós não passamos de maneira incólume pelo fato de o Brasil ter sido o último país a abolir a escravidão nas Américas, pelo fato de o Brasil ter recebido 4.7% do total de 12 milhões de africanas e africanos que deixaram de forma compulsória seu continente. Também não se escapa de forma incólume do fato de o Brasil ter tido escravos espalhados por todo o território nacional. A escravidão se naturalizou no país. Após a Lei Áurea, que foi uma lei muito curta de apenas uma linha, não houve medidas de inclusão social da população negra. Nós sabemos agora que existiram várias ações dos próprios ativistas negros desde o começo do século XX para elaborar políticas de autoestima para essa população. Da parte do governo, porém, sempre faltou vontade política. Estamos não só carregando uma herança pesada, mas também recriando fortemente práticas racistas e discriminatórias. Praticamos um racismo estrutural porque os números do Censo, dos mapas da violência e de outras pesquisas mostram de forma muito persistente como os brasileiros continuam discriminando negros no espaço da educação, da saúde, do transporte e da moradia. Essas pesquisas mostram como estamos matando uma geração de jovens negros nas periferias do Brasil todo. É um racismo estrutural porque ele abarca vários níveis de nossa estrutura, ou seja, ele não está localizado em um setor, mas se desmembra por vários setores.

E poderia comentar também sobre o conceito de racismo científico?

Foi uma teoria em voga no final do século XIX que entrou no século XX e foi até 1930, 1935. Chamava-se também de determinismo racial. Eram teorias que faziam acreditar que havia diferenças estruturais entre as raças. Nessa perspectiva, não seria possível comparar um negro com um branco. Quem acreditava nessa ideia dizia que as diferenças entre as duas raças eram tão grandes que os mestiços seriam um produto degenerado. E o que era ser degenerado? Era ter uma população com pederastia, déficit de conhecimento, problemas físicos. Esse racismo científico já não faz parte dos modos da ciência, mas trouxe uma teoria muito poderosa, que é a teoria do senso comum, que ainda hoje acredita nesse tipo de barbaridade.

Ano passado, Hamilton Mourão afirmou que o neto dele seria um cara bonito, que seria o branqueamento da raça. Esse comentário é fruto da política de embranquecimento do Brasil posta em prática no início do século XX?

Exatamente. Esse comentário é reflexo e produção deste pensamento. Por isso disse que na teoria do senso comum esses modelos ainda estão vigentes. Essa fala do general Mourão atualiza o que era uma teoria desacreditada. Outro dia li uma matéria sobre a morte de um garoto em uma favela que dizia que o menino tinha a cor da população local. Como assim tinha a cor da população local? A linguagem pode ser muito perversa porque ela naturaliza o que não é da ordem na natureza. É da ordem da cultura, da história e da política dos homens.

Em que medida o conceito de democracia racial mascarou a existência do racismo?

Mascarou muito a existência do racismo. Esse conceito não foi totalmente inventado por Gilberto Freyre, nos anos 30, mas ele ajudou a divulgá-lo. Quem cunhou o termo democracia racial foi Arthur Ramos e quem divulgou foi Gilberto Freyre. Agora, por que essa divulgação do Gilberto Freyre deu tão certo? Os mitos não são mentiras. Os mitos são, na verdade, resultados de grandes contradições insolúveis que vão trabalhando em espiral. O mito da democracia racial teve tanto impacto entre os brasileiros porque diz respeito a uma contradição fundamental da sociedade brasileira, que é justamente essa contradição que vem do sistema escravocrata e de um projeto republicano de baixa inclusão social. O mito da democracia racial impediu de certa forma a conformação de um movimento social que o questionasse e vendeu a imagem de que o Brasil seria uma grande democracia. Mas que democracia é essa, na qual você não vê negros nos clubes, nos teatros, nas salas de concertos e em restaurantes? Essa situação tem disso alterada desde o final dos anos 70 pelo ativismo do movimento negro, que vem questionando de forma muito forte essa falsa verdade. Nunca houve uma democracia racial, e penso mais: não existe país democrata enquanto persistir esse tipo de política racial, enquanto persistir o racismo.

Para a senhora, a incorporação da Funai pelo Ministério da Agricultura representa o quê?

A população indígena foi continuamente silenciada no Brasil. É uma política de não dar lugar. Os indígenas tiveram sistematicamente o direito à cultura, à história, à moradia e à terra contestado. No passado, foram muito desrespeitados a partir da questão da mão de obra. No final do século XVI, a igreja dizia que não era possível a escravização de nativos da terra, mesmo assim eles foram escravizados e utilizados como mão de obra. Esse problema mudou no século XX para uma questão de direito à terra. A constituição assegura o direito a reservas indígenas, mas, mesmo assim, eles são continuamente desrespeitados. A Funai, um órgão criado para estabelecer essas reservas, sempre esteve sob a guarida do Ministério da Justiça e passou agora para o Ministério da Agricultura. Isso para mim é uma contradição em termos. A autoridade para cuidar dos direitos da população indígena está com uma ministra que já recebeu verba de um proprietário de terras que assassinou uma liderança indígena. Além disso, ela apoia o armamento de parte da população. É uma contradição e um choque de interesses. A Funai não podia ter sido submetida a um Ministério da Agricultura totalmente controlado pelos interesses ruralistas.

Fonte: Época