22/11/2018

Você acredita que está sendo manipulado?

Eu acredito que sim — com certeza, na verdade. Mais do que isso, acredito que o futuro da nossa democracia depende da nossa capacidade de entender como estamos sendo manipulados.

Vou dar um exemplo recente: Alexandre Frota — já peço desculpas por usar algo tão baixo, foi mal, prometo que vai ser só hoje.

Espero que você não tenha visto, mas o deputado federal eleito pelo PSL compartilhou um vídeo no Twitter que mostra policiais militares do Rio de Janeiro jogando dois homens baleados que seriam suspeitos de um crime dentro de uma viatura. “No Rio de Janeiro o coro comendo.Policia Witzel já começa a mostrar sua força. Já já coletivos e ongs + Direitos Humanos e Onu começam a dar Chilique .Mas a limpeza precisa ser feita 🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷”, escreveu Frota. Como era de se esperar, muitos bateram palmas ao tweet, muitos outros criticaram.

Não se deixe enganar pelos erros de português, pontuação ou mesmo lógica nas frases de Frota. Esse tweet foi criado com muito cuidado — Frota não é Chico Buarque, mas ele sabe muito bem como usar as redes sociais para o sua causa. As bandeirinhas do Brasil ali não são um mero acaso, por exemplo — afinal, quem não é patriota, não é mesmo? Mas não vou entrar no mérito da mensagem do Frota, porque todos temos mais o que fazer no dia de hoje. O que queria apontar é que nós, jornalistas e pessoas que trabalham com Comunicação, ainda não entendemos plenamente que o mundo mudou — nossos modelos de negócios, a distribuição do conteúdo jornalístico, como as pessoas lêem o que escrevemos, como competimos com outras empresas, como somos manipulados por tweets como esse do ex-ator pornô… Mensagens assim são escritas por trolls como Frota e outros tantos polemistas profissionais exatamente para aumentar a polarização — e nós caímos nessa como um patinho.

Nos últimos anos, como a crise de confiança que se gerou em torno da imprensa, mensagens e tweets como esse do deputado federal eleito servem exatamente para criar ainda mais desconfiança na população. Como você pode ver no tweet acima, a resposta à critica não fica mais centrada na ação da polícia, mas vira algo sobre corrupção. É a isca perfeita para aumentar ainda mais a polarização — alguns fazem isso profissionalmente, outros são apenas massa de manobra mesmo.

Funciona mais ou menos assim:

  • Cria-se um espetáculo, algo polêmico;
  • Contas associadas divulgam o vídeo para aumentar sua divulgação, criando uma falsa sensação de que todo mundo está falando sobre aquele fato e concordado com a mensagem;
  • As pessoas começam a compartilhar organicamente a mensagem — “já que tanta gente pensa assim, eu também penso e vou mandar para os meus amigos do WhatsApp”;
  • A imprensa repercute e o autor vira um “mártir digital” para seus seguidores, alguém perseguido pela mídia e patrulhado pelo “politicamente correto — o que ajuda a radicalizar ainda mais o discurso. Como escrevi aqui, esse é o caminho da normalização do discurso de ódio. Na internet, quem é mais barulhento sempre ganha mais atenção. Só que quando encontramos alguém ganhando a atenção por ser barulhento, muitas vezes falamos mais alto. E quanto mais alto as pessoas falam, mais barulhento você precisa ser — assim, discursos vão se tornando cada vez mais extremistas, mais polarizados, mais agressivos, mais desconectados com a realidade.

É um jogo pensado para desmoralizar o discurso público e o jornalismo — e nós, jornalistas, estamos perdendo feio. Os principais ganhadores? Aqueles que sabem manipular essa onda digital para criar cortinas de fumaça — só para ficar em três exemplos: o MBL com sua ofensiva contra obras de arte que ofendem a família, Janaína Paschoal e sua luta contra a doutrinação nas escolas, ou o presidente eleito Jair Bolsonaro e sua obsessão pelo kit gay que nunca existiu. Aliás, oito em cada dez eleitores de Bolsonaro acreditam na mentira do kit gay.

Frota, MLB, Mamãefalei, Kim Kataguiri, Janaina Paschoal, João Doria, Joice Hasselmann, Bolsonaro e tantos outros transformam a política em um reality show — e como em todo reality show, além da exposição constante nas redes, é preciso ter um vilão. No caso, a “grande mídia”, a imprensa. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, jornalistas que fazem a cobertura eleitoral foram alvo de 137 casos de violência neste ano.

Quer ver mais um exemplo? Uma jornalista brilhante da Folha de S. Paulo publicou a matéria mais reveladora das eleições, sobre os disparos automáticos de mensagens no WhatsApp. Patrícia Campos Mello já fez reportagens em zonas de guerra no Afeganistão, Síria, Iraque e Gaza; cobriu a epidemia do ebola em Serra Leoa; foi correspondente em Washington; e fez uma ótima cobertura da eleição brasileira na Folha. O que restou então ao candidato Bolsonaro? Atacar a honra de Patrícia — exatamente com aquele modelinho que mostrei acima.

Resultado: a massa segue o bonde, desviando totalmente o assunto, criando uma cortina de fumaça para apagar vestígios da notícia original.

Segundo levantamento do própria Folha, Jair Bolsonaro atacou a imprensa dez vezes por semana durante o mês de outubro. No ano, foram mais de 130 ataques. Vale notar que isso não é incomum no nossa história recente. Como lembrou Vera Magalhães, “Collor mandou a Polícia Federal invadir a Folha, FHC rompeu com o jornal quando ele revelou a compra de votos para a reeleição, Lula inventou o PIG, o PT incentivou piquete na porta da Veja quando revelou que Lula e Dilma sabiam de tudo, Sarney censurou o Estadão.”

A diferença agora é a manipulação do discurso público virou política oficial. Bolsonaro vai continuar seus ataques à imprensa, e toda hora que jornalistas apontarem seu discurso como “reacionário”, ele vai atacar a “grande mídia” novamente por estar fazendo oposição.


Se você pensar bem, é uma jogada genial para criar cortinas de fumaça — mas a imprensa precisa aprender a jogar esse jogo, antes que a noção do que é verdade e o que é mentira se perca totalmente.

No centro da política moderna está a ideia de que todo cidadão é o governante de sua própria nação. O Jornalismo deve ter um papel central nessa promessa — é justamente através da imprensa livre que as pessoas podem confrontar nossos líderes, julgar suas aptidões e desenvolver suas próprias convicções.

O Jornalismo não é um produto qualquer da democracia — o Jornalismo é sua garantia.

Ao contrário do que muitos pensam, a censura não é o principal inimigo do bom Jornalismo. É a desinformação e a falta de contexto. São os fluxos de informações desorganizadas e fragmentadas que acabam minando a capacidade das pessoas de compreender a sua própria realidade. Como os tweets de ex-ator pornô, do MBL, do Olavo de Carvalho, do Bolsonaro…

Essa máquina de notícias sem contexto está corroendo a nossa capacidade de pensamento autônomo. E nos últimos anos, o Jornalismo fez um esforço enorme para piorar essa situação — correndo atrás de cliques para pagar as contas, criando controvérsia vazias, juntando-se ao circo. Se quiser ter relevância no debate público, o Jornalismo precisa ser maior do que isso. É preciso abandonar esse circo.

Como disse o Daniel Trielli, tem trabalho pra fazer.

O Buzzfeed Brasil fez uma lista com formas de apoiar o jornalismo feito no Brasil, e eu cito algumas aqui: 1) Assine o Nexo; 2) Doe qualquer valor para financiar a checagem de notícias do Aos Fatos; 3) Doe qualquer valor para financiar a Agência Pública, que faz jornalismo investigativo gratuito para o leitor e sem fins lucrativos. 4) Faça uma assinatura mensal do Jota, focado na cobertura de notícias sobre o Poder Judiciário. 5) Faça uma assinatura de um jornal como a Folha de S. Paulo ou O Globo ou o Estadão; 6) Acesse gratuitamente o El País Brasil, a BBC News Brasil e o The Intercept Brasil.

Eu, particularmente, espero estar ao lado dos jornalistas que estão sendo atacados, os jornalistas que estão sendo ameaçados — eu me sinto comovido por eles acreditarem que ainda podem gerar mudanças positivas na sociedade, e espero que eles possam me ensinar como ser um jornalista melhor.

Essa imprensa que tenta resistir sabe que não existem dois lados para cada história. Algumas histórias têm sete lados, algumas têm somente um lado. O contexto é o que deve guiar essas difíceis decisões do Jornalismo, protegendo os fatos integralmente e abandonando as insinuações completamente. Porque no fim das contas, nada é mais importante para uma democracia do que um eleitorado bem-informado.

Então fica aqui um viva ao jornalismo crítico e independente, que ele floresça nos próximos quatro anos. E vamos trabalhar.

Fonte:
Texto de Rodrigo Brancatelli
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