Saúde: por que nossos professores estão adoecendo?

Saúde: por que nossos professores estão adoecendo?

outubro 30, 2019 0 Por editorsinprosasco

A saúde mental dos docentes é, de longe, a principal razão de afastamento dos professores da rede pública de ensino em São Paulo; foram 53,1 mil licenças por diagnóstico de transtornos mentais em 2018 no estado.

Na matéria abaixo, focada especialmente em casos na rede pública de ensino em São Paulo, algumas pistas da extensão do que enfrentam professoras e professores em sala de aula.

Bia Giammei e Luiza Pollo, da Agência Eder Content original publicado pelo site R7

“Foram tantas situações que eu enfrentei, desde dedo na minha cara, chute na porta, até ameaça de que eu ia morrer na saída. Pai de aluno ameaçando me matar, na cara de policiais. É tanta coisa, que a gente vai adoecendo.”

O relato é da professora Ana Célia Serafim Santos, de 56 anos. Diagnosticada com depressão, síndrome do pânico e transtorno bipolar, ela precisou tirar diversas licenças do trabalho como professora de Língua Portuguesa e Literatura nas redes municipal e estadual. Com a saúde mental fragilizada, não pôde mais voltar à sala de aula. Há sete anos, está readaptada em funções administrativas em ambas as escolas nas quais trabalha.

A situação de Ana Célia reflete a de dezenas de milhares de professores da rede pública de ensino em São Paulo. O número de licenças por transtornos mentais e comportamentais vem aumentando ano após ano. Somente em 2018, foram 53.162 licenças por esses diagnósticos, segundo dados do Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME). Esse número equivale a mais de 40% do total de afastamentos no estado.

O pano de fundo que está adoecendo nossos professores inclui acúmulo de cargos para ter um salário melhor, ambiente estressante (em alguns casos, perigoso) e sensação de falta de valorização.

“Com o tempo, você vai vendo as coisas. É salário, é desrespeito, você sendo massacrado pelo governo, pela sociedade, pelos pais, pelos alunos”, relata Alba Valéria Santos Ferreira de Araújo (50), professora de Filosofia, readaptada na rede estadual de São Paulo depois de tirar repetidas licenças por transtornos de humor. “Você vai se frustrando, você vai se sentindo realmente um nada e você se sente diminuindo. Você olha pra si mesmo e quem é você? Cadê aquela pessoa que lutou para realizar um sonho?”, questiona a professora.

As principais queixas relatadas pelos sete docentes ouvidos pela equipe de reportagem – alguns pediram para não serem identificados – vão desde a falta de respeito cada vez maior dos alunos para com os professores até o grande número de alunos em sala fazendo barulho, bagunça e tornando as tarefas do professor mais pesadas. Incluem, ainda, o cansaço pelo acúmulo de cargos e o medo de ameaças dos próprios alunos e também dos pais.

Membro do Grupo de pesquisa Educação, Experiências Docentes e Direitos Humanos do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), o professor Gregório Grisa diz que esse quadro evidencia a desvalorização do profissional no país. “Como na escola se materializam todos os problemas da sociedade, naquele microcosmo você tem a dimensão da insegurança, das relações interpessoais negativas entre alunos, colegas, pais, que instauram esse sentimento de medo, de angústia, que produz adoecimento”, afirma.

A secretaria de Educação do Estado de São Paulo respondeu, por meio de nota, que “a valorização do professor, figura central no processo de aprendizagem, é prioridade para a atual gestão”. Para isso, diz o texto, desenvolve um conjunto de medidas para dar maior eficiência à gestão de recursos humanos e também para melhorar as condições de saúde de seus profissionais.

O serviço especializado do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) é apontado como uma dessas iniciativas: “Os servidores podem buscar atendimento, inclusive de forma preventiva”, informa a SEE paulista.

Já a Secretaria Municipal de Educação da capital reconheceu, também em nota, que o professor exige atenção especial em relação à saúde pela natureza de seu trabalho, que envolve crianças e adolescentes. O foco em saúde mental, vulnerabilidades e risco social é atribuição do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem (NAAPA), que promove ações dentro de escolas municipais com alunos e professores.

Somente em 2019, os 52 profissionais do NAAPA já realizaram 7,4 mil atendimentos na rede escolar paulistana, que vão desde a orientação pedagógica até o encaminhamento clínico.

Para ler na íntegra, clique aqui.

Fonte: Fepesp